ESPAMOL em Foco

Publicado em 2021-01-11 - 10:09:00

11/12/2020 - Entrevista - Nuno Boucinha

Este ano letivo está a ser marcado por uma situação bastante crítica, atípica e preocupante. O vírus da Covid-19 veio instalar-se entre nós, limitando todas as nossas ações enquanto ser social. Depois de uma primeira fase de confinamento geral, esta segunda vaga está a ser enfrentada de outra forma. No que às escolas diz respeito, foram implementados variados procedimentos. No Agrupamento ESPAMOL, o responsável máximo - ponto focal - é o professor Nuno Boucinha que faz a ligação entre as nossas escolas e as entidades da Direção Geral de Saúde.

Boa tarde, professor Nuno Boucinha! Agradecemos desde já a sua disponibilidade para nos esclarecer sobre a forma como o nosso Agrupamento de escolas está a lidar com esta nova realidade.

1. Surgiu logo aqui, na nossa introdução, um… digamos, “palavrão”: Ponto Focal. O que é isto, afinal?

Antes de mais quero agradecer a oportunidade que me dão e agradecer também o trabalho que a equipa de comunicação tem desenvolvido, porque é uma forma muito interessante e eficaz de poder divulgar à comunidade escolar aquilo que é a posição oficial da Direção do Agrupamento.

Relativamente ao Ponto Focal, esta é a designação que consta no Referencial enviado às escolas, em Setembro de 2020, para lidar com a pandemia mas, sobretudo, este ponto focal permite estabelecer uma articulação entre a Direção do Agrupamento e Autoridade de Saúde Local, a entidade que gere e define as medidas de combate e mitigação à pandemia, cumprindo com as regras e normas que estão definidas no nosso Plano de Contingência. O Ponto Focal (representa o foco do Agrupamento na questão da pandemia) centra a articulação entre todas as outras entidades envolvidas, numa pessoa, de forma a não haver discrepância de informações ou de atitudes. O meu papel é ser o responsável pela articulação da informação entre a Direção do Agrupamento e todas as entidades envolvidas no Plano de Contingência do Agrupamento para a questão da Pandemia por Covid 19, e que são a Autoridade de Saúde Local, a Proteção Civil da Câmara Municipal de Lagoa, a Direção Regional de Serviços e toda a comunidade escolar, informando e acompanhando todos os envolvidos na implementação das medidas que venham a ser necessárias, nomeadamente os alunos e suas famílias, pessoal docente e não docente.

2. Existe um orçamento destinado exclusivamente à proteção de todos os elementos da nossa comunidade educativa? Mas explique-nos concretamente em que serviços ou produtos esta verba é utilizada.

Isto começou muito mais cedo, ou seja, em julho quando estávamos a preparar o presente ano letivo. Saímos de um ano letivo que terminou com ensino à distância (E@D) e prevíamos obviamente que este ano começasse nestas circunstâncias que estamos a viver e, portanto, desde logo começámos a delinear uma série de medidas que não estão relacionadas propriamente com a aquisição de material, mas medidas organizativas da escola, nomeadamente na elaboração dos horários que permitissem que as escolas fossem o local mais seguro possível e que as mesmas não representassem um perigo adicional àquilo que nós vivíamos num contexto de sociedade. Tentámos que os alunos estivessem o menos tempo possível nas escolas e que existissem em simultâneo, o menor conjunto de turmas. A nossa gestão começou por aí, em termos organizativos, levando as pessoas a sentirem-se mais seguras. Houve, obviamente, uma verba do orçamento do estado que foi cabimentada para outro tipo de despesas adicionais e, portanto, houve necessidade de adquirir material, sobretudo de prevenção, como sejam as máscaras respiratórias. Numa perspetiva de sustentabilidade ambiental, optámos por adquirir conjuntos de máscaras (kits de três unidades laváveis até 25 vezes) que tivessem uma durabilidade maior, em detrimento das máscaras cirúrgicas descartáveis. A primeira remessa foi distribuída no início do ano letivo e a segunda será entregue em janeiro a toda a comunidade escolar. Paralelamente, também foi adquirido diverso material de desinfeção e higienização (soluções alcoólicas e desinfetantes) que foram disponibilizados em locais estratégicos e equipamentos de proteção individual que foram distribuídos aos nossos assistentes operacionais para, em caso de necessidade, utilizarem nas limpezas e estarem devidamente protegidos, nomeadamente na limpeza da sala de isolamento. Houve uma verba muito importante que foi alocada para este tipo de despesas que habitualmente não era necessária.

3. Quando existe uma suspeita ou confirmação de contágio, que procedimentos tem o ponto focal de seguir?

Ainda bem que me é feita essa pergunta porque é de extraordinária importância esclarecer as famílias, os alunos, os professores, os funcionários, toda a comunidade escolar de que a Escola não toma nem define nenhuma medida preventiva, em caso de aluno, professor, ou qualquer outro elemento que seja identificado como caso confirmado. Nesta situação que nos é dada a conhecer pela Autoridade de Saúde Local, e perante critérios epidemiológicos e a avaliação de risco efetuada por esta entidade, são determinadas medidas preventivas que podem passar pelo isolamento profilático de alunos, turmas, professores, ou assistentes operacionais / administrativos. Em situações mais graves pode ser determinado o encerramento de espaços ou de estabelecimentos de ensino. Em qualquer das situações, o nosso papel, enquanto escola, e o meu papel enquanto ponto focal, é o de agilizar os procedimentos, de forma a que essas medidas sejam implementadas com a maior brevidade possível e da forma mais eficaz. Este conjunto de ações em cadeia está muito bem descrito no referencial que foi enviado às escolas, em setembro, o qual está plasmado no Plano de Contingência do Agrupamento e até ao momento estamos satisfeitos com a forma como tem sido aplicado. Aproveito, desde já, para agradecer a colaboração estreita que a equipa de saúde local (Delegada de Saúde e equipa do Centro de Saúde) tem tido com o Agrupamento. A comunicação tem sido fluente e, independentemente do trabalho e da dificuldade enorme que esta entidade têm tido ao longo destes tempos, não podemos deixar de os elogiar e de agradecer a sua pronta colaboração. A verdade é que nos três casos, em que houve necessidade de implementar a medida de isolamento profilático de turmas e de um conjunto de professores, não se registaram outros casos de infeção relacionados com o primeiro. Num momento em que, na sociedade, a segurança de todos é relativa, a escola, na minha opinião, tem sido, até ao momento, um local seguro, considerando todas as circunstâncias difíceis que nos envolvem. A nossa insistência no cumprimento das medidas preventivas, nomeadamente no uso correto da máscara e sobretudo na desinfeção das mãos e higienização dos espaços, tem suprido a dificuldade enorme que qualquer Escola tem de fazer cumprir o distanciamento social nos seus espaços, em particular, na sala de aula.


4. Acha que a comunidade educativa tem sido sensível à situação de pandemia? Isto é, as atitudes e comportamentos respeitam as regras que têm sido exigidas?

As medidas previstas no Plano de Contingência e que espelham o referencial enviado às escolas devem ser cumpridas por todos os elementos da comunidade educativa e até pelas pessoas externas à escola. A verdade é que há algo que mudou. É um percurso que continua a ser difícil, ainda com um comportamento que não é exemplar, estamos longe ainda de o atingir, mas a verdade é que algumas coisas foram melhorando ao longo destes quatro meses, no lidar com a pandemia em contexto de ensino presencial. O uso correto da máscara respiratória que, inicialmente, foi difícil de implementar nos alunos. No interior das escolas até já o fazem, mas há ainda algo que falta! É serem coerentes com a atitude que têm na escola. Ainda sinto que falta essa coerência de atitude entre o que se passa na escola e o que se passa fora da escola. Também é importante a questão da higienização e lavagem das mãos, a questão do respeito pelos circuitos de circulação e, sobretudo, pela lotação dos espaços, cumprindo com o que são as regras de distanciamento social. Todos temos de ter consciência que estas medidas são fundamentais no combate a esta pandemia. Todos temos de ser mais coerentes com aquilo que implementamos. Se temos uma atitude num local, devemos manter a mesma atitude fora desse local.


5. Pedimos que nos relate algum acontecimento grave que tenha efetivamente acontecido dentro das nossas escolas e que, de alguma forma, possa servir de alerta para todos nós.

As três situações que ocorreram nas escolas do Agrupamento, e que representaram, de acordo com os critérios e avaliação de risco efetuada pela autoridade de saúde local, situações de risco para com colegas e professores e, portanto, houve necessidade de implementar a medida de isolamento profilático de um conjunto de alunos ou professores, correram, como referi, relativamente bem. Portanto, não posso falar de um problema, mas de uma solução. Há um aspeto que, na minha opinião, poderia representar sim um problema, mas que até ao momento se tem verificado cada vez menos, pois é evidente que as famílias estão conscientes de algo que era frequente no passado e que não pode, neste contexto, acontecer. Refiro-me à situação em que os alunos vinham para a escola com alguns sintomas que desvalorizavam e que posteriormente eram encaminhados para a área de isolamento, sendo depois contactada a Saúde 24. Isto começou por acontecer com alguma frequência, no início do ano letivo, mas as famílias foram tomando consciência de que tal não poderia acontecer, tendo havido a necessidade de as sensibilizar. Aí, foi importante o papel dos diretores e professores titulares de turma que através de diversas formas de comunicação, tudo fizeram para sensibilizar as famílias e alunos, a esse respeito. Desta forma, é algo que reforçamos... Se têm sintomas, ou sentem algum mal estar, é preferível ficar em casa e contactar a linha de Saúde 24.


6. Para terminar, uma pergunta muito pessoal: o que é que o preocupa mais neste momento relativamente à situação pandémica?


Em termos gerais, na sociedade preocupa-me a falta de perceção que alguns ainda manifestam relativamente a este problema. Talvez porque parte dos casos confirmados são assintomáticas ou têm sintomatologia ligeira, ou porque, ainda, não sentiram diretamente as consequências desta pandemia . A mim cabe-me, neste momento, dar uma palavra de enorme agradecimento ao Serviço Nacional de Saúde pelo seu papel fundamental, na capacidade que têm tido em manter o nosso país de pé e de o manter a funcionar dentro, obviamente, de algumas restrições. A verdade é que, em termos escolares, a escola não é a mesma. Muita coisa mudou! A Escola como espaço de contacto social, como espaço de afetos, em que um sorriso, o contacto físico, um cumprimento é fundamental, não é a mesma que tínhamos antes. Eu tenho saudades dessa Escola. Anseio o dia em que as coisas voltem à normalidade, anseio o dia de voltar a ver o rosto dos meus alunos, anseio o dia de voltar a ver o sorriso dos meus colegas e das pessoas com quem trabalho e de os poder abraçar e com elas conviver, sem estas restrições que o distanciamento social e que o uso da máscara respiratória nos impõe. A Escola está ferida, mas o mais importante é percebermos que as feridas são um sinal de que nos mantemos vivos e que devemos ser resilientes para recuperar tudo o que perdemos, a breve prazo. Gostaria muito de ver isto terminado o mais rapidamente possível.

Despedimo-nos com agrado do professor Nuno Boucinha, com o desejo de todos nós de que esta fase termine rapidamente e nos devolva a liberdade de nos pudermos abraçar de novo.



Equipa de Comunicação

José Inácio Sequeira